
Carta à Ela,
Querida Amiga,
Eis-me longe! Do outro lado do visível! Eis, finalmente resolvida a luta de outra forma!
Queria dizer-te tanta coisa, tanta coisa... mas pergunto-me se ainda há coisas que poderiam ser ditas sem repetir aquilo que já dissemos.
Bruxelas - Bélgica é bastante pequena, mas é um universo que me permite expandir ao infinito o sofrimento provocado por saudades que me abalam, saudades de ti, saudades vossas (daí...) e por esta cruel solidão que teima perseguir-me. Sofri de solidão na Bélgica, fugi para Sesimbra, onde a solidão foi ainda maior e voltei para a Bélgica. Triste lema!
Agora continuo só, e só porque deixei em Portugal tudo aquilo por que vivo. Aqui, ao longe, tão longe, só me resta a vontade de vencer, de lutar e conseguir tudo aquilo que tenho por montes e vales perseguido.
Como estás, pequenina amiga cruel? Há com certeza mais sol e estrelas no céu de Sesimbra desde que parti daí. As nuvens dissiparam-se logo após a minha partida. O sol reapareceu. Dissipou-se a bruma do espírito. Começou um novo dia. Começou nova vida. Rejuvenesceu a existência desse pacato recanto da Terra.
Oxalá que seja ao menos para haver sol do verdadeiro. Ninguém mais do que eu gostaria de reencontrar um dia mais tarde logo que aí volte, porque hei-de voltar essa claridade natural que tanto anima o espírito e dá leveza ao pensar.
Nunca esquecerei que vivi momentos feéricos e os dias mais felizes da minha vida aí. Aprendi tanta coisa em três meses. A vida também se aprende, sabias?
Fui sincero comigo, fui sincero com os outros e ganhei confiança em mim, embora tenha perdido os princípios que serviram de alicerces à minha personalidade. Hoje sinto-me o Manel de Sesimbra, como se estivesse encostado ao infinito, longe, confuso, perdido. É desagradável aquela sensação de perecer numa longa e vertiginosa agonia. Sesimbra foi para mim o princípio e o fim do sonho e do amor.
Pudera eu dizer-te de viva voz tudo isto! Pudera eu confessar-te o mais pequenino dos meus sentimentos! Como poderei neste marasmo de tristeza e sem ter vergonha de mim mesmo acalentar dentro de mim este profundo desejo de te ver? É desejo, é tristeza?! Será humano abafar cruamente o que a natureza criou? Quem dá esse direito às pessoas?
Como vão os teus filhos? Como vai o teu marido?
Oxalá que a minha fuga chamemos-lhe assim! tenha servido para a felicidade de todos vós. A ser assim, orgulhar-me-ia de uma decisão que tanto me custou a tomar. As lágrimas por vezes lavam muito pecado e aliviam muita mágoa.
Nunca eu quis apossar-me daquilo que não me pertencia, nem nunca eu quis tomar o lugar de alguém. A liberdade tem destes caprichos que, por vezes, coloca-nos perante situações tais que somos incapazes de as solucionar. O que me prendeu a ti, querida amiga, foi algo de tão natural que pode acontecer a toda gente.
Não sei o que chamar a esse sentimento que me envolveu plenamente, mas sei que fui sincero contigo e com todos.
Esqueçamos Sesimbra. Sesimbra passou, Sesimbra acabou. Doravante, serei sozinho na minha saudade, no meu desespero. Talvez que um dia o sol também desponte para mim. Então, nessa altura, poderei dar, em grandes doses, tudo aquilo que nunca ninguém quis aceitar de mim: a imensidão do meu afecto.
Desejo-te muitas felicidades, querida amiga, tanto como para os teus.
Se algo tiver nascido que tenha de perecer, que esse algo morra já. Evitarei assim o definhar longo e incómodo que é horrível. Mas viverá sempre comigo a imagem, a esperança, o sonho e a lembrança que tu me inspiraste. Isso será eternamente meu.
Saudades minhas.
(MS)