
DE BRANCO SE VESTE
De branco vestidos são
A pomba, a alegria
A virgindade e a pureza,
O lírio dos campos e o malmequer,
A rosa e o cravo,
O diabo e a mulher.
Também da mesma cor se vestem
Os anjos e os arcanjos,
A flor de laranjeira,
Da parreira e do linho,
De branco se vestem o vinho
O doutor e a enfermeira.
É da mesma cor
Que veste o marinheiro
Dizem que o sol,
No rabo o rouxinol
E o padeiro.
Branca é a justiça,
A virtude e a castidade
A lua e bondade,
Dizem que o nabo
Marido da nabiça.
De branco se vestem a lama,
A noiva e o figurino,
E por vezes a chouriça,
O Papa e o fantasma.
Branca é a aguardente
E sê-lo-á toda a gente
Logo que perca o tino.
MS / 1977
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QUERERES
Eu queria cantar-te no sabor dos meus delírios
As elegias dos campos, o perfume dos lírios
Queria ver nos aspirais a esperança de amor
E no candor
Em que se joga a fortuna do prazer
Queria ver pedaços de homens-deuses
E caminhos escuros penetrando o infinito.
MS / 1979
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DELÍRIO
Vivo ainda o teu delírio no deserto
Os teus olhos risonhos fincados no céu
Sentindo o além a esmagar-te a vontade
O teu desejo era então o meu desejo
O teu prazer era então o meu delírio.
Ambos perdidos, divagámos juntos
Tu no teu delírio
E eu no meu
segredo.
Ó Cláudia,
Vivo desde então o tempo que vai passando
Dia após dia
Mês após mês
Ano após ano
Até à eternidade
Mas nada muda !
Se um dia o destino pudesse
aproximar-nos
Para nos amarmos de novo escondidos ao longe
Tão longe que nem o tempo pudesse encontrar-nos
E tão perto que nem o ar nos separasse.
Ver os teus olhos brilhantes
Sentir os teus lábios quentes
Ouvir os teus sonhos de enlevo…
Como o tempo é ingrato!
Como o espaço é cruel!
Vivemos longe um do outro
Separados pelo espaço
E vivemos tão perto
Nesse momento acabado.
Mas viver seria encontrar o passado.
MS - Sinai, 1992
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SUSPIRO
De
todos os animais na terra criados
o
homem é o mamífero mais tolo
Vive,
sonha e sonha ainda
corre,
vive e sonha e sonha ainda
Dorme,
sonha e já não vive.
E
depois,
dentro
de si,
na
imensidade da sua mágoa
apega-se
de olhos postos no impossível
ao
inferno que o devora.
Que
importa amar!
Que
importa que o teu sorriso
seja
premissas do meu futuro!
Nada
vale o chorar dos meus olhos
nem
a dor profunda que me invade.
Tu,
musa!
Tu,
pedra!
Tu,
mágoa minha!
Que
me importa sentir-te
como
estrela cadente perdida no universo,
se
tu nem sabes o que sentir possa ser.
ms.
/1998
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apagar
de um ecrã memórias ainda vivas
Ninguém
pode apagar de um ser
o
desespero da alma.
O
meu segredo é meu
A
minha dor é só minha
O
meu chorar não o apagas.
Só
chora quem vive
E
só vive quem sonha.
Apaga...
Apaga
tudo quanto queiras
mas
jamais apagarás de mim
a
tua imagem
o
teu sorriso
tu
mesma.
MS
/ Leuven, 1984
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DESEJOS
OCULTOS
Hoje,
até cantar me apetecia
Correr,
gritar e mostrar que vivo
Hoje,
até sorrir me apetecia
Cantar,
gritar e fugir ao comum
Mas
o mundo não me vê
O
peso do ser esmaga-me os sonhos
A
vida corre sem eu a sentir
E
além,
Prostrado
no cerne do seu pensar
Vive
aquele homem,
Aquele
homem que eu sou
Aquele
desconhecido
Aquele...
Aquele... Enfim...
O
bicho
Hoje,
até cantar me apetecia
Pois
cantar poderia então
Afugentar o desespero e fazer-me sorrir
Hoje,
até gritar me apetecia
Pois
gritar poderia então
Transformar
os meus sonhos
Em
verdadeiros remansos
Hoje...
Hoje,
deixo-me morrer... sem mais.
MS
/ Bruxelas 1998
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MOMENTOS
O médico sorriu
a enfermeira picou
o cinesioterapeuta esfregou
a anestesia agiu
Depois
O doente acordou
a enfermeira falou
o cinesioterapeuta não estava
o médico faltava
e o doente sorriu
e mandou-os a todos
p'ra p... que os p....
M.S. Março 1980